'Corpos de militantes mortos eram expostos como troféu no DOI-Codi'
Marival Chaves (foto), ex-servidor do centro de
tortura, falou à Comissão Nacional da Verdade que Ustra era 'permissivo'
com atos de violência contra presos políticos
10/05/2013
Júlia Rabahie,
Em
depoimento prestado nesta sexta-feira (10) à Comissão Nacional da
Verdade (CNV) em Brasília, o ex-sargento e servidor do Destacamento de
Operações Internas do Centro de Informações de Defesa Interna do II
Exército de São Paulo (DOI-Codi/SP), Marival Chaves, afirmou que após
presos políticos da ditadura (1964-85) serem mortos e torturados nos
chamados centros clandestinos de tortura – aqueles que estavam fora do
aparato oficial de repressão – por agentes do Estado, seus corpos eram
levados para o DOI-Codi de São Paulo para serem expostos aos oficiais do
Exército. Chaves trabalhou do DOI-Codi entre 1973 e 1974.
O
militar reformado foi interrogado pelos membros da CNV Cláudio Fonteles
e Carlos Dias, e ao ser questionado do motivo para a exposição dos
corpos dos dissidentes mortos, afirmou que funcionavam como “troféu”.
“As pessoas eram trazidas por se tratarem de figuras importantes nas
organizações clandestinas, era como um troféu de vitória”.
Entre
os corpos que foram exibidos no DOI-Codi de São Paulo, Chaves apontou o
casal Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Morais Angel Jones,
militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) mortos em 1973 no
centro de cárcere e tortura clandestino da Serra do Mar, chamado de “O
sítio”. “Eles foram presos na Baixada Santista e levados para o sítio.
Foram levados depois para o DOI-Codi, vi os corpos e deu para ver que as
balas foram direcionadas para as cabeças e para os ouvidos”.
Chaves
não afirmou com certeza a autoria da determinação para que os corpos
fossem expostos, mas o coronel reformado Carlos Alberto Ustra,
comandante do DOI-Codi de 1970 a 1974, que também prestou depoimentos à
CNV, foi apontado por ele como “permissivo em relação a este tipo de
atitude”. “Acho difícil que, sem que o comando tivesse conhecimento, ou
até autorizasse, os corpos seriam trazidos e expostos a visitação
pública interna no DOI”, comentou, acrescentando que pediu para deixar o
local porque não suportava as atrocidades.
Além
do centro de tortura da Serra do Mar, que, segundo Chaves, funcionava
desde antes de 1973, quando passou a trabalhar no DOI-Codi, até 1974,
quando foi desativado, havia um segundo centro clandestino usado para os
mesmos fins. “Em 1974 este primeiro centro foi desativado e montaram o
de Itapevi, 'a Boate'”. Para o ex-sargento, tanto o funcionamento do
Sítio como o da Boate tinha aval e colaboração do comandante Ustra.
“Não
tinha como uma iniciativa dessa acontecer sem o Ustra liberar. A
decisão pela ativação dos centros era medida adotada pela cúpula do
golpe. Se você quer definir responsabilidade, ele era o comandante”,
disse.
Ele ainda afirmou que os líderes da ALN
eram pessoas “marcadas para morrer”. “Se assumia o comando, morria.” Um
terceiro centro clandestino passou a funcionar em 1975, contou. “Era na
Rodovia Castelo Branco.” Ainda de acordo com ele, os últimos ativistas
do Partido Comunista Brasileiros (PCB) desaparecidos foram encaminhados
para este terceiro centro. Em 1975, líderes do PCB, como Orlando da
Silva Rosa Bonfim Júnior, “foram encaminhados para este cárcere e lá
morreram”.
Esta foi a primeira vez que a Comissão da Verdade tomou depoimentos abertos ao público de agentes da repressão.
Foto: Wilson Dias/ABr
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